Desafios de ser mãe no Canadá

Mudar de país em busca de uma vida melhor foi uma grande aventura na minha vida. Aprendi uma nova cultura, idioma e mudei a forma de encarar as coisas. Mas assim como essa nova vida nos trouxe muita alegria, ela também nos trouxe desafios. E para viver bem aqui é preciso saber conviver e superar esses desafios.

Nesse post do Projeto Mães no Canadá, falarei de um deles: ter filhos nesse novo país que escolhi para chamar de casa. Ser mãe é um desafio em qualquer lugar mas num país estranho é ainda maior. Para quem não sabe, tenho duas filhas, que estão com 6 e 9 anos. Em cada fase do desenvolvimento delas enfrentei desafios diferentes. Mas algumas coisas tem sido constantes, independente da idade e são elas que resolvi listar,

Criar os filhos sem a presença da família

Ter filhos longe da família é o maior desafio de todos, em minha opinião.

Não apenas pelo fato de não ter alguém por perto para dar apoio, ajudando e aconselhando, mas pela falta de convivência das crianças com avós, tios e primos. Eu cresci cercada por uma família grande e alguns deles estavam sempre perto, na casa ao lado para ser mais exata. Aqui as minhas filhas não tem ninguém  e isso me parte o coração. Por melhores que sejam os amigos que tenho aqui, não é a mesma coisa.

Faço o possível para que minhas filhas estejam sempre em contato com a família no Brasil mas uma ligação de Skype nunca será igual a sentar no colinho do vovô ou da vovó, ou aprontar arte junto com os primos. Essa lição de conviver diariamente com o sentimento de culpa de estar privando minhas filhas do contato familiar por ter escolhido morar longe foi uma das coisas mais difíceis que tive que aprender.

Leia também: O que aprendi sendo mãe no Canadá

Tentar achar um equilíbrio entre duas culturas e dois idiomas

As crianças que crescem no Canadá, nascidas aqui ou não, precisam aprender a cultura local para se integrarem na sociedade. E como a cultura canadense é dominante, isso virá naturalmente. Porém, ao mesmo tempo que eu quero que minhas filhas abracem a cultura do país que elas nasceram, não quero que percam a minha. E isso vale para o idioma também.

Ensinar dois idiomas e duas culturas é muito mais fácil na teoria, do que na prática. Requer muito mais do que “só falar português” em casa com os filhos, como já falei inúmeras vezes nos posts sobre bilinguismo. É preciso ser criativa e inventar maneiras para que as crianças se envolvam na nossa cultura e no idioma.

E a medida que os filhos vão crescendo, os desafios aumentam. Aqui em casa as meninas falam português e inglês mas percebo que  inglês é a primeira lingua. Curioso que o idioma que elas usam depende muito da situação. Quando estão juntas falam inglês. Conosco misturam tudo e falam num dialeto próprio com frases que se iniciam em um idioma e terminam em outro. E quando estão com pessoas que não sabem falar inglês elas não misturam, só perguntam de vez quando como é que fala tal coisa em português.

Eu sigo ensinando nossa cultura e incentivando o uso do português em casa. Porém quando percebo que elas querem ficar falando só inglês dou uma de boba e finjo que não entendo.

Escola

Quem acompanha o blog sabe que já escrevi diversos posts sobre educação e escolas.

Mesmo antes das minhas filhas entraram no Kindergarten procurei me informar muito sobre como as crianças são ensinadas para que eu possa dar um suporte aqui em casa. A forma como a escola funciona é diferente do que estamos acostumados no Brasil, assim como parte do conteúdo e a forma de ensinar.

E a medida que elas avançam na escola, mais dificuldades eu sinto em ensiná-las pois preciso reaprender o que sei antes de tentar ajudá-las. Alguns assuntos são novos, como história, e outros são ensinados de uma forma totalmente diferente do que aprendi, como a matemática (aliás odeio o método usado por eles aqui). E como já falei aqui, acho os livros daqui bem fracos em termos de explicações.

O inverno

Sim o inverno é um desafio para mim. Além da dificuldade normal que o frio traz, como cuidados com a saúde e vestir um monte de roupas, tem o fato de que nessa época as crianças acabam ficando mais dentro de casa. E me diga qual é a criança que gosta de ficar presa?

Eu tive que me mudar a minha forma de pensar e aceitar que as crianças precisam brincar do lado de fora mesmo se estiver -10C. Aliás aqui em Toronto os alunos das escolas tem recreio do lado de fora se a temperatura estiver até -15C. Nos dias mais frios as meninas brincam dentro de casa e tento disponibilizar atividades diferentes para que elas não queiram ficar só na TV ou videogame.

Mas mesmo enfrentando esses desafios e fazendo sacrifícios, criar minhas filhas no exterior tem sido recompensador pois tenho a chance de proporcionar experiências e uma qualidade de vida que não teria se morasse no Brasil.

Os desafios de outras mães no Canadá

Foto; arquivo pessoal da Alessandra

Como cada pessoa tem vivências e percepções diferentes, convidei a minha amiga Alessandra, do blog Alicia e Outros Papos. Ela também mora aqui em Toronto e é mãe de uma menina linda.

Eu já morava no Canadá há dez anos quando a Alicia nasceu, mas parece que assim que ela chegou em minha vida, eu me vi aterrissando em um país completamente diferente. Se não bastasse as novidades da maternidade em si, ainda tive que aprender a como ser mãe num país que não é o meu, numa segunda língua; como conciliar as diferenças culturais (somos muitos mais protetoras e agarradas aos filhos do que eles),  os procedimentos médicos, desde a gestação, o pré-natal, parto, até o dia de sair do hospital aos cuidados do dia a dia, enfim, o que é esperado de mim como mãe canadense.

No começo, foi bem intenso, principalmente porque temos o hábito de comparar o que temos e o que fazemos aqui com o que temos e fazemos no Brasil. Hoje, depois de quatro anos, vou vendo que as coisas vão se encaixando, que aquela expressão “a gente acostuma” é uma santa verdade. Não deixei de ser agarrada e super protetora, (sorry!) mas já trafego com mais tranquilidade tanto na questão maternidade quanto no que esperar dos sistemas de saúde e educacional do país. E acho que os médicos e professores da Alicia também já se acostumaram comigo!

Outro fator que pesa é a falta da família, pra pegar no pesado com você, dividir a carga, ajudar, aconselhar, meter o bedelho mesmo. É chato quando se tem muito, verdade, mas faz tanta falta quando não se tem nada. Também pelo fato de a Alicia saber o que é primo, tio, um monte deles. Casa lotada, almoço de domingo na casa da . Meu marido é canadense, tem família aqui, mas é magrinha, magrinha, só mãe, irmã e dois sobrinhos, que também moram longe, então fica difícil manter aqueles laços fortes de família. O jeito é usar e abusar dos meios tecnológicos pra manter, ao menos, a imagem dos familiares na mente da criança, e passar o maior sentido possível de família com a que temos aqui, composta de cinco membros, contando Tony e Vicky, nossos dois gatos.


Outras blogueiras do projeto

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Gabriela | Gaby no Canadá
Mariana | De Bem Com a Vida

Livi

Baiana expatriada em Toronto. Adora escrever sobre suas viagens em família e experiência de vida no Canadá

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6 Resultados

  1. Janaina disse:

    Oi Livi, tudo bem?
    Também sou de Salvador e estou iniciando o processo para morar no Canadá. Tenho um filho de 7 anos e o que mais me consumia seria a adaptação dele, mas lendo alguns textos seus e conversando com outras pessoas me acalmei.
    Mas agora aconteceu algo que não estava nos nossos planos. Engravidei!!! É agora? Quero mais do que nunca morar no Canadá e criar meus filhos em um país que lhes dê oportunidade e segurança.
    Queremos ir em 2019, dando tudo certo.
    Agora estamos pesquisando como ir com um bebê.
    Você conhece algum casal que já passou por isso?

    • Livi disse:

      Oi Janaína,

      Que bom ter mais uma conterrânea aqui.
      Eu conheço gente que engravidou com pouco tempo de Canadá mas não me lembro de ninguém que tenha vindo com bebê.
      Você tem alguma dúvida (ou dúvidas) específica? Talvez eu possa te ajudar. Beijos

  2. Adri disse:

    Vc tocou em pontos super importantes mesmo Livi. Eu esqueci de falar da língua, mas é mesmo um desafio importante em ser mãe no Canadá!

    Beijos
    Adri

  3. Muito bom o texto. Parabéns pela riqueza de detalhes! Pra mim um tanto curioso a percepção das culturas por pessoas que não cresceram em ambas. Eu e minha irmã crescemos dividindo fases de nossas vidas entre Brasil e Canadá. No inicio mais eu do que ela. Cheguei a frequentar high school em ambos países. Não gosto de fazer muita comparação ( no meu caso em especifico ) porque estudei numa escola particular muito forte no Brasil e numa publica na Ilha de Vancouver ( e não tenho experiência com escola particular no Canadá ) .A principal diferença que senti era que aqui nos davam muitas opções como , jornalismo , culinária, carpintaria , mecânica de automóveis e algumas mais que no Brasil eu não tinha acesso , principalmente “data processing” que em 1983 era algo inédito pra mim numa escola .
    Quanto à lingua e cultura, com certeza muito mais desafiador manter uma cultura brasileira aqui do que vice versa, pois , no Brasil vc encontra escolas bilingues com inglês. Sendo assim , eu estudava numa escola que alfabetizava em ingles enquanto que meu pai também so falava comigo em ingles, minha mãe falava mais português comigo. Meu pai lia historias em inglês e mantinha o máximo de tradições canadenses em casa. Desde livros infantis às detalhes pertinentes às datas festivas.
    Hoje sou uma pessoa totalmente integrada à ambas as culturas, em alguns aspectos me identifico mais com uma do que com outra, mas aí há acredito ser uma coisa muito pessoal.
    Minha irma teve uma experiencia muito interessante pois ela teve uma familia no Brasil ( do primeiro casamento com um brasileiro ) e agora uma família no Canada ( casada com um canadense ) . Ela como pedagoga teve uma escola no Brasil e atualmente trabalha numa faculdade em Oshawa . Os filhos nascidos no Brasil tiveram muito mais oportunidade de assimilar a cultura canadense ( até porque tinham um avô canadense ) do que vice versa. A filha nascida aqui mal fala português . Minha irma até conseguiu manter a língua em casa enquanto teve uma nani brasileira mas depois que ela se foi minha irma foi voto vencido e o inglês prevaleceu . Os filhos do primeiro casamento moram há um ano em Toronto. E a a filha mais velha agora passa por essa experiência com uma filha de 3 anos que começa a estudar aqui e já está abraçando o ingles com tremenda desenvoltura.
    Enfim, todos vamos ter experiências diferentes mas fato é que a diversidade cultural nos torna mais adaptáveis e com certeza falar mais de uma língua nos oferece mais opções na vida.
    My 2 cents!
    Ron

    • Livi disse:

      Oi Ron,

      Muito obrigada por compartilhar sua experiência, achei super interessante!

      Espero conseguir manter as duas culturas e os dois idomas aqui em casa pois com certeza minhas filhas só terão a ganhar com isso.

      Um abraço

  4. Gabriela disse:

    Ola Livi. Acabei de ler seu texto e vi que nossos desafios são os mesmos. Só não falei da escola porque ainda não tive esta parte, mas acredito que tbem vou achar como um desafio. Beijos

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