Minha experiência com o bilinguismo morando no Canadá

Mesmo antes de ter filhos já tinha uma certeza: queria que eles aprendessem português. Quando a Elena nasceu optamos por falar com ela na nossa língua mãe,  afinal quando ela fosse para a escola aprenderia o inglês, já que moramos na parte inglesa do Canadá. Queríamos que ela tivesse uma boa fundação de português, que fixasse o idioma e de uma certa forma sempre foi instintivo falar em nossa língua dentro de casa. Mas convivíamos com o bilinguismo sem se preocupar muito com ele. Não sei explicar por que li sobre gravidez, amamentação, alimentação, educação, desfralde e fiquei ignorante sobre bilinguismo. Como foi que deixei passar isso?

imageErrei e não tenho vergonha de admitir. Perdi o detalhe mais importante: para aprender um idoma a criança precisa interagir com ele. Não basta apenas morar no país para aprender o idioma automaticamente, é preciso interagir no sentido de praticar, conversar e usar no dia-a-dia. E minhas filhas não interagiam o suficiente com o inglês quando eram bem pequenas.

Frequentávamos programas de contação de histórias na biblioteca, grupos de mães/bebês no centro comunitário, parquinho da esquina mas em nenhum momento elas tinham que falar inglês, podiam apenas ouvir (assim como ouvem a TV) e na hora de falar recorriam a mim ou ficavam quietas.

Continuamos nessa rotina de interação limitada com o inglês até quando a Elena tinha 4 anos. Já estava notando que ela se comportava de uma forma ao redor de pessoas/crianças que falavam português e de outra quando as pessoas falavam apenas inglês. Quando o idioma não era o que dominava ela se tornava uma criança tímida e brincava mais quietinha. Após um período longo de férias no Brasil, o pouco de inglês que ela sabia regridiu.

Certo dia no parque ela me perguntou por que ninguém queria brincar com ela e me partiu o coração. Ela tentava conversar em português e as crianças ignoravam. Comecei a ler e me informar mais sobre o assunto (no fim do post tem uma lista de livros e blogs que me ajudaram).

Não me entendam mal, ela compreendia o inglês mas não se sentia confortável em falar porque nunca tinha praticado a conversação. Sei que estranho dizer isso pois moramos no Canadá mas como minhas filhas não foram para a creche e não tinham amiguinhos canadenses na época, elas simplesmente não precisavam falar inglês para nada.

Daí em diante tentei buscar maneiras com que elas interagissem mais com o inglês. Na época, a creche da escola onde elas começariam o Kindergarten tinha um programa onde podíamos deixar as crianças por 2 horas pela manhã. Coloquei a Elena 2 vezes por semana para testar e infelizmente o lugar não foi uma boa opção. Para resumir a história: as professoras não faziam nenhuma atividade com as crianças, que ficavam apenas brincando dentro da sala, enquanto elas conversavam. Não tinha música, nem trabalhinhos, nem podiam brincar no parquinho do pátio. Como não havia uma estrutura, ela acabava isolada, brincando sozinha por duas horas. A experiência durou menos de um mês (Fevereiro/Março). Por isso que falei que tinha bronca da creche da escola nesse post aqui.

Resolvemos tentar os programas oferecidos pela prefeitura de Toronto. Na primavera e no outono sai um catálogo com atividades oferecidas para todas as idades nos centros comunitários. Pagamos uma taxa relativamente barata pelos programas que começam a cada estação (primavera, verão, outono ou inverno). Escolhemos natação, ballet e um programa chamado supervised play (brincadeira supervisionada) com duração de 2 horas, duas vezes na semana (podia ter colocado todos os dias mas como não conhecia preferi não arriscar).

Me surpreendi com o supervised play! Três professoras ficam com 25 crianças com idades entre 2,5 a 4 anos e promovem atividade física, artesanato, música e brincadeiras . Elas entregam um calendário explicando tudo que vão fazer em cada aula, todas com um tema diferente. O tempo é dividido da seguinte forma: 1 hora de aprendizado, 20 minutos de brincadeira livre, 10 minutos para um pequeno lanche, 25 minutos  de atividade física e 5 minutos cantando antes de encerrar. Ao final de cada aula as crianças levam seus trabalhinhos para casa.

Em menos de dois meses a Elena ficou praticamente fluente (porque ela já sabia, apenas não praticava). Em casa ela começou a misturar mais os dois idiomas e também conversar com a irmã mais nova (que também aumentou seu vocabulário na segunda língua). Começaram as duas a misturar os idiomas e falar em português da forma como se fala em inglês (espera me – wait for me e por aí vai). Sei que essa mistura é normal e isso não me preocupa. O importante é que elas continuem falando português ao mesmo tempo que estão falando inglês.

Na época, a professora contou que ela progrediu rapidamente e não teve muitos problemas em se comunicar com as outras crianças. Fiquei feliz e aliviada em saber.

A Sophia, minha mais nova, não Passou por essa dificuldade porque quando mudamos nossa estratégia  em relação ao bilinguismo ela tinha menos de 2 anos. Ela conversava com a Elena e assim que completou 2 anos e meio foi para o supervised play, 3 vezes por semana.

Seguimos em frente tentando achar um equilíbrio e um espaço para as duas línguas. Depois que as duas foram para a escola, elas passam a maior parte do tempo interagindo com o inglês e a coisa se inverteu. Eu preciso cuidar para que elas não percam o português. Continuamos conversando na nossa língua em casa e buscando formas para manter o interesse delas em falar português. Por enquanto estamos conseguindo e ambas são fluentes nos dois idiomas.

Essa foi a minha experiência inicial com o bilinguismo,  aprendi com os meus erros e espero que o relato seja útil para alguém que esteja passando pela mesma situação.

Livros sobre bilinguismo que recomendo

  • The Bilingual Edge
  • Raising a Bilingual Child
  • 7 Steps to Raising a Bilingual Child
  • The Bilingual Family

Blogs que eu recomendo

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Imagem:  Escondido Public Library

Livi

Baiana expatriada em Toronto. Adora escrever sobre suas viagens em família e experiência de vida no Canadá

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11 Resultados

  1. Fernanda Duarte Peixoto Soares disse:

    Oi Livi! Sei que esse post é antigo, mas como estou começando a viver essa situação agora, fiquei curiosa. A dificuldade de contato de seuas meninas com o inglês era pq elas até então nãoiam para escola? Digo isso pois as minhas meninas (gêmeas de 18 meses), frequentam o daycare desde os 11 meses. Estão apenas começando a falar, e sim, dentro de casa só falamos português, mas está sendo incrível ver como elas estão aprendendo as duas línguas ao mesmo tempo. Li em algum lugar que no início assim eles aprendem como se fosse uma linguagem só, um só código, e depois vão separar. Noto que elas aprendem a palavra que for mais fácil (doggie, ao invés de cachorro ou água ao invés de water, por exemplo) ou a que tiverem mais contato (peço pela bola e elas falam ball hahaha, pq imagino que brinquem de “ball” na creche então escutam bastante). Sei que devemos manter o português presente na vida delas inclusive fora de casa para que continuem aprendendo, mas acredito que assim desde bebês tendo contato com o inglês na creche talvez não teremos os entraves que vcs tiveram, né? (Já estou mergulhada nos seus posts sobre educação, mesmo ainda sendo cedo para nós rsrsrs). Obrigada e um beijo!

    • Livi disse:

      Oi Fernanda,

      Obrigado por compartilhar sua experiência.
      Respondendo suas perguntas, sim as minhas filhas não frequentaram creche e por isso o contato mais forte era com o português. Apesar de frequentar com elas programas nos centros comunitários, a mais velha só ficou sozinha depois que completou 4 anos. O começo foi um pouco mais dícil mas ela aprendeu rapidinho.

      Com a mais nova eu fiz diferente e já coloquei ela nos programas que ficava sozinha mais cedo, então ela teve a mais chances para desenvolver os dois idiomas já pequena. A gente aprende com nossos erros né? 🙂
      Beijos

  2. Livia disse:

    Estou desesperada tenho uma filha de 6 anos foi alfabetizada em español na espanha que morei 12 anos sempre falei com ela em portugues mas ela nunca respondeu em portugues. Agora que mudamos para o Brasil ela parou de falar espanhol e so fala portugues. O que eu tenho que fazer para ela voltar a falar espanhol. Eu converso muito com ela em espanhol. Mas ela esta perdendo inclusive a fonetica da lingua espanhola.

    • Livi disse:

      Oi Livia,

      Eu tenho um outro post no blog sobre mitos do bilinguismo onde dou algumas dicas de como manter uma segunda língua. Minha sugestão é ler histórias, passar filmes, conversar (como você está fazendo) e, se puder, encontrar outras pessoas que falem espanhol. Eu sei que no Brasil as coisas são diferentes mas veja se tem algum centro cultural ou coisa parecida. Se você tiver amigos ou parentes na Espanha, especialmente amiguinhas dela, poderia organizar um bate papo com eles no Skype. O importante é não desistir e sempre estimular o contato com o idioma. Um abraço!

  3. Giovana disse:

    Muito legal o seu blog! Sou brasileira, moro no Brasil mas sempre soube que meus filhos seriam bilíngues. Quando minha filha nasceu simplesmente passei a falar Inglês com ela, e deixei que o resto das pessoas da casa (meus pais, irmãos) falassem o Português. Com nove meses ela já se referia ao mesmo objeto em Inglês quando estava comigo, e em Português quando conversava com os outros. Cresceu falando perfeitamente as duas línguas. Foi alfabetizada em Português, mas por ter o Inglês como segunda língua, leu e escreveu em ambas as línguas sem problema. Continua assim até hoje (aos 11 anos).
    Como professora, já vi casos de crianças cujo pai conversava num idioma, a mãe em outro e o ambiente (país de residência) em outro. Elas aprenderam os três idiomas e nunca demonstraram dificuldade.
    Children are often understimated, they can do MUCH MORE than we think! 😉

    • Livi disse:

      Oi Giovana,

      Fiquei muito feliz com o seu depoimento, para criar filhos bilíngues basta ter força de vontade e se informar né? Não é preciso estar fora do Brasil para isso. Sua filha com certeza vai ser sempre grata pelo seu esforço.
      Aqui, depois que escrevi o post as coisas mudaram um pouco. Em breve escreverei sobre o assunto com um update.

      Obrigado pela visita!

      Um abraço

  4. Samia Miamoto disse:

    Nossa faz muito tempo que não venho aqui!!! Desde que parei com o blog a um ano atras… Aqui tudo começou crdo, antes da Letícia completar um ano. Sempre falei em português dentro de casa mas porta pra fora é em japonês talvez por isso ela não tenha dificuldade em nenhuma das duas linguas, no começo todo mundo falava que eu ia enlouquecer a pequena mas ela sempre demonstrou interesse e atualments por causa dos desenhos que assiste esta se interessando pelo inglês e eu acho otimo pq tenho a chance de desenferrujar o meu! Kkkkkkk

    • Livi disse:

      Pois é, com a Sophia já estou fazendo diferente. Mas sempre dando mais importância para o português, não quero que daqui uns anos elas parem de praticar e esqueçam. Continue ensinando, em breve vou fazer outro post com umas dicas. Beijos

  5. Ana disse:

    Esse é um assunto que me interessa muito, Livi. Eu acho que você faz bem em manter o português em casa. Quando comecei a ler o post, fiquei esperando que você falasse que tivesse começado a falar inglês com elas. Se você quer incentivar o bilinguismo, isso não pode acontecer. Foi ótimo que você encontrou atividades fora de casa onde a Elena tem mais contato com o inglês! A gente fica mesmo apreensivo, mas no final dá sempre tudo certo. A fase da transição pode ser um pouco chatinha, mas passa logo. Daqui a pouco você vai ter que segurar pra elas não desembestarem a falar inglês dentro de casa, como às vezes acontece aqui.

    Eu tô há um tempão pra escrever sobre isso no blog. Até fiz trabalho na escola sobre bilinguismo, porque era um assunto que me interessava muito.

    Adorei teu post!

    • Ana disse:

      Ah, sim, eu li 3 dos 4 livros que você citou acima. Muito bons mesmo. Gostei muito do The bilingual family. Outro que eu li pra fazer esse trabalho da escola foi A parents’ and teachers’ guide to bilingualism, é no formato de pergunta e resposta, bem simples de ler e bem esclarecedor.

      Veja também o site http://www.mylanguage.ca. É de uma professora de Early Childhood Education da Ryerson University.

    • Vou ver o livro e site que você falou. Escreve sobre tua experiência sim, aí coloco um link para ele aqui, seus relatos são sempre tão informativos! Deixar de falar português NUNCA! Essa briga não posso perder mas sei que tudo tem seu tempo e vou tentando resolver os problemas a medida que forem aparecendo. Vou me informar bastante para ficar um passo a frente 🙂

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