Minha experiência com o bilinguismo

Mesmo antes de ter filhos já tinha uma certeza: queria que eles aprendessem português. Quando a Elena nasceu optamos por falar com ela na nossa língua mãe,  afinal quando ela fosse para a escola aprenderia o inglês, já que moramos na parte inglesa do Canadá. Queríamos que ela tivesse uma boa fundação de português, que fixasse o idioma e de uma certa forma sempre foi instintivo falar em nossa língua dentro de casa. Mas convivíamos com o bilinguismo sem se preocupar muito com ele. Não sei explicar por que li sobre gravidez, amamentação, alimentação, educação, desfralde e fiquei ignorante sobre bilinguismo. Como foi que deixei passar isso?

imagePerdi o detalhe mais importante: para aprender um idoma a criança precisa interagir com ele. Não basta apenas morar no país para aprender o idioma automaticamente, é preciso interagir no sentido de praticar, conversar e usar no dia-a-dia. E minhas filhas não interagiam o suficiente com o inglês. Frequentávamos programas de contação de histórias na biblioteca, grupos de mães/bebês no centro comunitário, parquinho da esquina mas em nenhum momento elas tinham que falar inglês, podiam apenas ouvir (assim como ouvem a TV) e na hora de falar recorriam a mim ou ficavam quietas.

Continuamos nessa rotina de interação limitada com o inglês até fevereiro 2013. Já estava notando que a Elena se comportava de uma forma ao redor de pessoas/crianças que falavam português e de outra quando as pessoas falavam apenas inglês. Quando o idioma não era o que dominava ela se tornava uma criança tímida, que brincava em silêncio com as outras crianças. Após um mês de férias no Brasil, brincando com primos e amiguinhos, o pouco de inglês que sabia regridiu. Certo dia no parque ela me perguntou por que ninguém queria brincar com ela e me partiu o coração. Ela tentava conversar em português e as crianças ignoravam. Comecei a ler e me informar mais sobre o assunto (no fim do post tem uma lista de livros e blogs que achei interessante).

Que idéia foi essa de mandar a menina para escola sem saber falar? Sei que ela aprenderia o inglês depois de um certo tempo, mas queria que o processo de transição fosse mais fácil. Daí em diante tentei buscar maneiras com que ela interagisse mais com o inglês.

A creche da escola onde ela vai estudar tem um programa onde podemos deixar as crianças por 2 horas pela manhã. Coloquei 2 vezes por semana para testar e infelizmente o lugar não foi uma boa opção. Para resumir a história: as professoras não faziam nenhuma atividade com as crianças, que ficavam apenas brincando dentro da sala, enquanto elas conversavam. Não tinha música, nem trabalhinhos, nem podiam brincar no parquinho do pátio. Como não havia uma estrutura ela acabava brincando sozinha por duas horas. A experiência durou menos de um mês (Fevereiro/Março). Por isso que falei que tinha bronca da creche da escola nesse post aqui.

Resolvemos tentar os programas oferecidos pela prefeitura de Toronto. Na primavera e no outono sai um catálogo com atividades oferecidas para todas as idades nos centros comunitários. Por uma pequena taxa você pode se matricular nesses programas que começam a cada estação (primavera, verão, outono ou inverno). Escolhemos natação, ballet e um programa chamado supervised play (brincadeira supervisionada) com duração de 2 horas, duas vezes na semana (podia ter colocado todos os dias mas como não conhecia preferi não arriscar). Nossa, me surpreendi com o supervised play! Três professoras ficam com 25 crianças com idades entre 2,5 a 4 anos e promovem atividade física, artesanato, música e brincadeiras . Elas entregam um calendário explicando tudo que vão fazer em cada aula, todas com um tema diferente. O tempo é dividido da seguinte forma: 1 hora de aprendizado, 20 minutos de brincadeira livre, 10 minutos para um pequeno lanche, 25 minutos  de atividade física e 5 minutos cantando antes de encerrar. Ao final de cada aula as crianças levam seus trabalhinhos para casa.

Em menos de dois meses o vocabulário da Elena aumentou bastante e ela já começou a praticar inglês com suas bonecas e Sophia (que nesse tempo também aumentou seu vocabulário na segunda língua). Começou a misturar os idiomas ou fala em português da forma como se fala em inglês (espera me – wait for me). Sei que essa mistura é normal e isso não me preocupa no momento. O importante é que ela continua falando português e está realmente interagindo e aprendendo inglês. Está também mais interessada em ouvir histórias e sentamos juntas todas as noites para ler 2 ou três livros antes de dormir, ou as vezes ela conta a história para mim. Leio nos dois idiomas, antes lia praticamente em português. A professora contou que ela está progredindo bastante e não está tendo problemas em se comunicar com as outras crianças. E já fez várias amiguinhas. Fiquei feliz e aliviada em saber.

Seguimos em frente tentando achar um equilíbrio e um espaço para as duas línguas. Não sei como vai ser daqui para frente mas continuo com a certeza de que a fluência no português é fundamental aqui em casa. É o idioma oficial e o que continuarei usando com elas.

Livros que eu recomendo

  • The Bilingual Edge
  • Raising a Bilingual Child (estou lendo)
  • 7 Steps to Raising a Bilingual Child (na fila para ser lido)
  • The Bilingual Family (também na fila)

Blogs que eu recomendo

Queria saber das outras mamães por aí, qual a experiência de vocês? Alguma dica de livros ou blogs sobre o assunto?

Imagem:  Escondido Public Library

Livi

Baiana expatriada em Toronto. Adora escrever sobre suas viagens em família e experiência de vida no Canadá

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9 Resultados

  1. Livia disse:

    Estou desesperada tenho uma filha de 6 anos foi alfabetizada em español na espanha que morei 12 anos sempre falei com ela em portugues mas ela nunca respondeu em portugues. Agora que mudamos para o Brasil ela parou de falar espanhol e so fala portugues. O que eu tenho que fazer para ela voltar a falar espanhol. Eu converso muito com ela em espanhol. Mas ela esta perdendo inclusive a fonetica da lingua espanhola.

    • Livi disse:

      Oi Livia,

      Eu tenho um outro post no blog sobre mitos do bilinguismo onde dou algumas dicas de como manter uma segunda língua. Minha sugestão é ler histórias, passar filmes, conversar (como você está fazendo) e, se puder, encontrar outras pessoas que falem espanhol. Eu sei que no Brasil as coisas são diferentes mas veja se tem algum centro cultural ou coisa parecida. Se você tiver amigos ou parentes na Espanha, especialmente amiguinhas dela, poderia organizar um bate papo com eles no Skype. O importante é não desistir e sempre estimular o contato com o idioma. Um abraço!

  2. Giovana disse:

    Muito legal o seu blog! Sou brasileira, moro no Brasil mas sempre soube que meus filhos seriam bilíngues. Quando minha filha nasceu simplesmente passei a falar Inglês com ela, e deixei que o resto das pessoas da casa (meus pais, irmãos) falassem o Português. Com nove meses ela já se referia ao mesmo objeto em Inglês quando estava comigo, e em Português quando conversava com os outros. Cresceu falando perfeitamente as duas línguas. Foi alfabetizada em Português, mas por ter o Inglês como segunda língua, leu e escreveu em ambas as línguas sem problema. Continua assim até hoje (aos 11 anos).
    Como professora, já vi casos de crianças cujo pai conversava num idioma, a mãe em outro e o ambiente (país de residência) em outro. Elas aprenderam os três idiomas e nunca demonstraram dificuldade.
    Children are often understimated, they can do MUCH MORE than we think! 😉

    • Livi disse:

      Oi Giovana,

      Fiquei muito feliz com o seu depoimento, para criar filhos bilíngues basta ter força de vontade e se informar né? Não é preciso estar fora do Brasil para isso. Sua filha com certeza vai ser sempre grata pelo seu esforço.
      Aqui, depois que escrevi o post as coisas mudaram um pouco. Em breve escreverei sobre o assunto com um update.

      Obrigado pela visita!

      Um abraço

  3. Samia Miamoto disse:

    Nossa faz muito tempo que não venho aqui!!! Desde que parei com o blog a um ano atras… Aqui tudo começou crdo, antes da Letícia completar um ano. Sempre falei em português dentro de casa mas porta pra fora é em japonês talvez por isso ela não tenha dificuldade em nenhuma das duas linguas, no começo todo mundo falava que eu ia enlouquecer a pequena mas ela sempre demonstrou interesse e atualments por causa dos desenhos que assiste esta se interessando pelo inglês e eu acho otimo pq tenho a chance de desenferrujar o meu! Kkkkkkk

    • Livi disse:

      Pois é, com a Sophia já estou fazendo diferente. Mas sempre dando mais importância para o português, não quero que daqui uns anos elas parem de praticar e esqueçam. Continue ensinando, em breve vou fazer outro post com umas dicas. Beijos

  4. Ana disse:

    Esse é um assunto que me interessa muito, Livi. Eu acho que você faz bem em manter o português em casa. Quando comecei a ler o post, fiquei esperando que você falasse que tivesse começado a falar inglês com elas. Se você quer incentivar o bilinguismo, isso não pode acontecer. Foi ótimo que você encontrou atividades fora de casa onde a Elena tem mais contato com o inglês! A gente fica mesmo apreensivo, mas no final dá sempre tudo certo. A fase da transição pode ser um pouco chatinha, mas passa logo. Daqui a pouco você vai ter que segurar pra elas não desembestarem a falar inglês dentro de casa, como às vezes acontece aqui.

    Eu tô há um tempão pra escrever sobre isso no blog. Até fiz trabalho na escola sobre bilinguismo, porque era um assunto que me interessava muito.

    Adorei teu post!

    • Ana disse:

      Ah, sim, eu li 3 dos 4 livros que você citou acima. Muito bons mesmo. Gostei muito do The bilingual family. Outro que eu li pra fazer esse trabalho da escola foi A parents’ and teachers’ guide to bilingualism, é no formato de pergunta e resposta, bem simples de ler e bem esclarecedor.

      Veja também o site http://www.mylanguage.ca. É de uma professora de Early Childhood Education da Ryerson University.

    • Vou ver o livro e site que você falou. Escreve sobre tua experiência sim, aí coloco um link para ele aqui, seus relatos são sempre tão informativos! Deixar de falar português NUNCA! Essa briga não posso perder mas sei que tudo tem seu tempo e vou tentando resolver os problemas a medida que forem aparecendo. Vou me informar bastante para ficar um passo a frente 🙂

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