O que aprendi fazendo trabalho voluntário na escola

A mais ou menos dois anos atrás escrevi um post sobre o meu desapontamento com as escolas do meu bairro. Foi um desabafo na época que matriculei minha primeira filha, afinal mesmo morando aqui a tantos anos eu não entendia direito como funcionava o sistema. Após o primeiro ano dela no kindergarten minha visão era totalmente diferente.

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No segundo ano resolvi fazer um trabalho voluntário na biblioteca, que era para ser provisório e acabou se extendendo por todo o ano letivo, duas manhãs por semana. Além do aprendizado óbvio de como funciona uma biblioteca, cadastrando, organizando e catalogando livros (que eu gostei bastante), a experiência me proporcionou a oportunidade de estar dentro da escola, conhecer alguns professores e entender melhor a rotina do dia-a-dia.

Eu tinha o maior medo da escola católica daqui ser retrógrada como era na época que estudei no Brasil. Não é. A influência católica está estampada em cada canto mas as salas de aula não tem aquele estilo tradicional, são bem acolhedoras. Especialmente as do kindergarten e dos graus 1 ao 3. Eles tem rituais matinais de fazer uma prece, ler a Bíblia e cantar o hino nacional. As orações e leituras são feitas pelo diretor ou vice, que não são padres, nem freiras. Aliás ninguém na escola é, o padre da paróquia vem apenas em datas especiais. O hino é cantado pelos alunos, cada dia uma classe diferente. Tudo é transmitido pelo sistema de som para a escola inteira. E as crianças se orgulham disso, cantam com entusiasmo! A minha mais nova, que acabou de completar 4 anos, vai comigo ajudar a bibliotecária e já sabe cantar o hino (e organizar livros na prateleira).

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E por falar em ajuda, as crianças são ensinadas desde cedo a serem independentes e responsáveis. Esqueça aquele modelo brasileiro de ter sempre alguém para fazer tudo para as crianças. Aqui se aprende que é preciso cuidar do que é seu e do que é de todos. Então todo mundo tem que colaborar para o bom funcionamento da escola (inclusive os pais). As tarefas são distribuídas de acordo com as idades.

Alguns exemplos. Dentro da sala todos ajudam a professora a manter o ambiente limpo e organizado, os alunos mais velhos até tiram o lixo reciclável e jogam no cesto do lado de fora. A escola, com mais de 600 estudantes, possui apenas uma pessoa responsável pela limpeza durante o dia. E está sempre limpa viu! A bibliotecária tem uma escala de estudantes que se revezam para ajudar a colocar os livros nas prateleiras. Eles ficam lá durante 15 minutos duas vezes por semana. Outra coisa que acho bem legal é um programa chamado reading buddy, onde crianças do grau 4 ou 5 vão ao jardim de infância, toda sexta feira, ler para os pequenos. Cada aluno tem um parceiro de leitura. Minha filha adora e se sente o máximo quando a amiga mais velha fala com ela do lado de fora da escola.

O ranking de uma escola não diz tudo sobre ela (como me avisaram no outro post). Claro que é um bom indicativo de como andam as coisas mas a instituição está em constante mudança. Um novo diretor por exemplo, pode transformar uma escola para melhor ou pior. Só para ter uma idéia, na época da matrícula a nota daqui era 6,5, hoje é 7,8. E a posição no ranking geral subiu consideravelmente.

Os pais que fazem parte da comunidade também tem papel super importante pois as escolas precisam do suporte deles para funcionar melhor. Os pais ajudam em tudo que vai além do básico para o bem estar dos alunos, como festas, passeios, almoços especiais, viagens, etc. Também podem opinar nos gastos e postura educacional. Todas as decisões de grande importância são colocadas em votação e precisam ser aprovadas pelo conselho de pais.

Mas o melhor de tudo em relação a esse período de trabalho voluntário foi me sentir parte da comunidade, não apenas uma cidadã no papel. Farei novamente sempre que puder.

Eu sei que nem tudo é perfeito e o sistema educacional tem problemas como em qualquer lugar mas acho que eles estão num bom caminho, não é mesmo?

biblioteca-2Foi assim que tudo começou

Para saber mais sobre educação e escolas no Canadá e ver outros posts que já escrevi sobre isso no blog segue esse link.

Livi

Baiana expatriada em Toronto. Adora escrever sobre suas viagens em família e experiência de vida no Canadá

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5 Resultados

  1. kelly disse:

    Meus filhos faziam o reading buddy e aprenderam bastante com isso! O engraçado era que eles me contavam que os pequenos (3 anos) corrigiam o inglês deles. Criança é tão incrível que se divertem com os próprios erros e com alguém corrigindo.

    • Livi disse:

      Hahaha as crianças são ótimas mesmo! Quando estava aprendendo inglês, conversava muito com a filha da vizinha, com 5 anos na época, ela me ensinou bastante e me ajudava a praticar pois me corrigia, coisa que os adultos nunca faziam. Beijos mil!

  2. Lis disse:

    Que legal! Nao sabia que as escolas aqui eram assim.. gostei de saber!
    O que mais gosto daqui eh como as pessoas sao ligadas na sua comunidade e adoram fazer trabalhos voluntarios, seja nas escolas, nos museus etc. Isso eh algo que nos Brasileiros nao temos e nem fazemos e pode ser algo que faria uma grande diferenca no nosso pais neh.
    =)

    • Livi disse:

      Com certeza Lis!

      E esse senso de comunidade é ensinado desde cedo.

      É uma pena que no nosso país poucas pessoas valorizam essas coisas 🙁

  3. Ana disse:

    Que máximo, Livi! Eu também voluntario na biblioteca da escola das minhas filhas, como você sabe, e é tão bacana poder ajudar, né? Fazer parte da comunidade, como você falou. Da minha experiência com escolas aqui em Vancouver, parece que tudo é bem parecido como você relatou daí. Os pais fazem muita diferença na rotina da escola e estão sempre muito envolvidos com as atividades extras, arrecadando fundos para eventos especiais, e melhorias na escola.

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