O Hospital Sick Kids em Toronto e o susto que levamos

Se você nos acompanha nas redes sociais, provavelmente ficou sabendo que a nossa filha Sophia, de 6 anos, teve apendicite e precisou fazer uma cirurgia de emergência há 10 dias atrás. Por esse motivo fiquei ausente do blog e das redes sociais nos últimos dias. Ela foi atendida no hospital Sick Kids aqui em Toronto, que é especializado em crianças e considerado um dos melhores do mundo na área. Ficamos 7 dias morando lá, revezando as noites entre eu e o meu marido para cuidar da nossa pequena.

Queria dividir com vocês a nossa experiência e colocar para fora o que estou sentindo. Aproveito para agradecer as mensagens de carinho e apoio que recebemos. Esse suporte ajudou demais nesse momento tão tenso que passamos na última semana. O post também serve para alertar aos pais que fiquem de olho nos sintomas do seus filhos e se preciso insistam para que seja feito uma investigação mais detalhada. Isso fez toda a diferença no nosso caso.

Apesar de não achar o sistema de saúde canadense ruim, acredito que ele pode ser melhorado em vários aspectos. No geral o sistema funciona para todos, mesmo com toda a burocracia. Mas confesso que as vezes tenho a impressão que o procedimento padrão é assumir que não há nada errado e mandar o paciente para casa. Quando cheguei aqui, criticava muito o sistema mas hoje já não faço tanto, como falei nesse post sobre o que aprendi morando no Canadá. Me acostumei com o jeito deles. Sei também que existem profissionais bons e ruins em qualquer lugar, por isso não posso generalizar. Até porque já fui mal atendida no Brasil também. Porém tem horas que é impossível não reclamar. Enfim, não quero entrar nesse tópico, nem criar um pânico, quero apenas relatar o que aconteceu conosco.

Os primeiros sintomas

A nossa Sophia começou a passar mal com sintomas que inicialmente pareciam o que eles chamam aqui de stomach flu (vírus gastrointestinal). Febre baixa, falta de apetite, vômito e dor na barriga. Como não parecia ser nada grave ela ficou descansando em casa.

No dia seguinte a barriga estava inchada, meio rígida e tão dolorida que não podíamos nem tocar. Ela não conseguia explicar onde era exatamente a dor, falava que era na barriga toda e pior ao redor do umbigo. Ela não estava fazendo escândalo, nem chorando, apenas ficava deitada quietinha e gemendo.

Suspeitei que ela pudesse ter machucado a barriga na escola ou que fosse outra coisa mais grave, como apendicite. Não sou o tipo de pessoa que corre para emergência por qualquer motivo, tento ir apenas quando acho que é um problema que necessita de atenção imediata. E diante dos novos sintomas achei melhor ir.

Hospital Sick Kids

O atendimento na emergência

Quando chegamos no setor de emergência do hospital ela foi logo admitida e não tivemos que esperar quase nada. Ou seja, eles também suspeitaram de algo mais sério.

Fomos colocados num quarto individual com TV e cadeira para os pais. Esse é o procedimento padrão no Sick Kids, mesmo na emergência. Geralmente permanecemos nesse quarto até que as crianças sejam liberadas.

A médica residente examinou a Sophia cuidadosamente e suspeitou de apendicite por causa dos sintomas apresentados. Sugeriu uma ultrassonografia. Porém quando a médica responsável veio, determinou que era apenas stomach flu, sem sequer examinar a criança direito. Resultado, nos mandou embora e afirmou com todas as letras que não era apendicite. Fiquei chocada com esse atendimento pois não esperava isso nesse hospital.

Como vocês podem imaginar fiquei indignada e insisti que fizesse uma ultrassonografia. Mesmo que ela não achasse que era apendicite, havia claramente algo errado e portanto devia ser investigado. Contei para ela a história de uma amiga que perdeu a filha por causa de uma apendicite que não foi diagnosticada a tempo. Ela fez piada e disse que certamente isso não foi no Canadá. Continuou irredutível e se negou a pedir o exame.

Bati o pé e disse que não iria embora sem uma ultrassonografia. Não fui mal educada em nenhum momento mas fui taxativa. Ela autorizou a contra gosto, mandou liberarmos o quarto e fez a minha filha com dor sentar no corredor. Sim isso acontece no Canadá também.

Apesar da médica ter dito que esperaríamos 3-4 horas, a residente veio conversar conosco 1 hora depois e disse que tinha conseguido vaga para o exame em 30 minutos. E eu só tenho a agradecer pelo profissionalismo dessa mulher pois o resultado confirmou um quadro de apendicite aguda com perfuração do apêndice. perfurado. Ou seja, o fluido da infecção estava vazando para o abdômen da minha filha. Portanto, ela precisava de intervenção imediata e iniciaram os antibióticos na veia.

A cirurgia de emergência

Cabeça de mãe é muito fértil, a gente fica neurótica achando que o filho tem um monte de doença mas no fim quase sempre é uma bobagem. Infelizmente dessa vez eu estava certa e a notícia me fez perder o chão.

A médica residente providenciou tudo até o momento da transferência para a equipe de cirurgia. A médica arrogante me encontrou no corredor e teve a cara de pau de dizer “ainda bem que você insistiu pela ultrassonografia”. Sei que errar é humano mas quando penso no que poderia ter acontecido se eu tivesse ido embora para casa não consigo perdoar essa mulher. Ainda não cheguei nesse estágio de evolução espiritual. Espero do fundo do meu coração que isso sirva de lição e que ela preste mais atenção nos próximos pacientes.

Depois dessa experiência negativa a Sophia foi admitida no hospital e fomos atendidos por uma equipe de cirurgiões incrível! A médica explicou tudo com detalhes e se mostrou muito cuidadosa. Ela viu o quanto estávamos preocupados e assim que acabou a cirurgia veio nos tranquilizar.

Apesar da cirurgia de apendicite ser relativamente simples, a da minha filha foi mais complicada por causa do rompimento do apêndice. Isso aumentou o risco de infecção e por isso ela precisou ficar vários dias no hospital para ser acompanhada de perto.

A estrutura do hospital Sick Kids

Qualquer pessoa vai concordar que ficar internado num hospital é horrível, principalmente para uma criança. Mas no Sick Kids eles fazem o possível para criar um ambiente mais confortável para os pacientes e suas famílias. E por isso sou muito grata.

O quarto é amplo e possui uma cama para os pais. Tem TV, DVD, som e ainda podemos pegar emprestado aparelhos de videogames para as crianças. Nós também temos acesso a uma copa com geladeira e microondas.

Assistindo TVQuadro de avisos no quarto

Em todos os andarem há 4 salas de entretenimento, com brinquedos, jogos de tabuleiro, videogames, livros e uma imensidão de DVDs a nossa disposição. Nós podemos pegar qualquer coisa e levar para o quarto ou incentivar a criança a andar até as salas. 

As enfermeiras foram anjos na terra, super cuidadosas, principalmente à noite. Não tenho nem palavras para agradecer a essas pessoas.

Há vários voluntários que visitam os pacientes, fazem brincadeiras, pintura, arte e por aí vai. Cada um com seu talento para tentar minimizar o sofrimento de quem está ali. Os cachorros terapeutas vinham diariamente e minha filha ficava ansiosa esperando por eles. Em um dos dias eles deixaram ela levar o cachorro para passear e isso a motivou a andar mais.

O hospital possui um calendário de eventos e até um programa de TV interno que acontece algumas vezes por semana. Durante o show as crianças podem ligar para responder uma pergunta e, mesmo errando, ganham um prêmio. Sophia ficou super feliz por ter “aparecido” na TV e respondido certo.

A comida

Outra coisa que achei bem pensado foi que há um menu para pedirmos a comida. Não é toda criança que come tudo então há variedade para escolher.

E apesar de haver algumas coisas não tão saudáveis como hambúrguer e batata frita no menu, são coisas que agradam as crianças. A gente pode pedir o que quiser mas dependendo do tipo de cirurgia há limitações na dieta. Minha filha não podia fritura mas ficou super feliz por poder pedir sorvete na sobremesa. Disse que era igual a um hotel.

O gosto era de comida de hospital mas a pequena estava tão feliz de poder comer que achou delicioso.

Pequenos detalhes que fazem a diferença

Todos esses pequenos detalhes me trazem um enorme sentimento de gratidão por esse hospital. Além de salvarem a vida da minha filha eles conseguiram fazer com que a experiência não se tornasse um trauma. Melhor ainda eles conseguiram que ela se lembrasse apenas dos momentos de alegria que passou lá.

Ela não fala na dor, nas espetadas, nos gritos das outras crianças, ou no sofrimento de ter ficado com uma agulha enfiada na mão tantos dias. Ela foca apenas nas coisas boas e em tudo que ela conseguiu fazer. Uma das enfermeiras trouxe um colar da bravura e para cada procedimento ou marco alcançado o paciente ganha uma miçanga colorida. No fim viemos para casa com quase 30 e ela mostra o colar com orgulho ao invés de tristeza.

No total a Sophia ficou 7 dias no hospital, tomando antibióticos na veia e depois mandaram para casa com mais antibióticos. Ela ainda precisa ficar em observação até a próxima semana e se tiver qualquer sinal de infecção precisamos voltar para o hospital. Graças a Deus ela está se recuperando bem até agora e tenho fé que não teremos mais problemas.

Em casa com o ursinho que a professora deu e o cartão
que os amiguinhos da escola fizeram


Foto de capa: divulgação Sick Kids Hospital

Livi

Baiana expatriada em Toronto. Adora escrever sobre suas viagens em família e experiência de vida no Canadá

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10 Resultados

  1. Aline Guedes disse:

    Feliz por ter dado tudo certo e por sua pequena estar bem! Imagino o desespero que vc passou. E essa experiência toda nos mostra que é preciso estarmos SEMPRE alertas. Que bom que insistiu com essa médica irresponsável.

  2. Adriane Jungues disse:

    Ai que sustoo! Que bom que a Sophia já está melhor! Feliz Natal pra vcs.. bjos

  3. VidalNorte disse:

    Livi, li e me imaginei no seu lugar. Coração de mãe não falha. Obrigada por compartilhar esse momento tão delicado. Um beijo em vc e na Sophia.

  4. Michelle disse:

    Ótimo post. Sou enfermeira no Brasil há 10 anos e estou na luta para validar meu diploma em Ontário.
    Bom saber o seu lado como paciente/ acompanhante, a relação da hospitalidade no Sick kids e o desfecho feliz do caso da Sophia.
    Espero poder atuar em qualquer lugar para o melhor e aprender com os relatos, bons e ruins.
    Grande beijo a vocês.

  5. Fabiana disse:

    Nossa Livi! Que perrengue…fico meio chocada com a questão da dieta e dessa primeira médica que atendeu a Sofia. Mas de qualquer forma, que bom que tudo acabou bem. Que sua bonequinha se recupere bem e bem rápido!

  6. Soedi disse:

    Graças à Deus, uma história com final feliz
    Que a linda Sophia se recupere o quanto antes e que volte com força total, que brinque muito mesmo!!!

  7. Emanuelle disse:

    Que bom que tudo ficou bem com a sua pequena, sei bem o que passou e realmente espero que esses profissionais se tornem realmente profissional. O meu bebê nasceu bem prematuro com 24 semanas e eu passei 4 meses no sick kids fora às vezes que voltamos ai. Melhoras menininha linda!!!

  8. Que bom q ela esta em casa e se recuperando bem ! Instinto de mãe é tudo.Graças a Deus deu tudo certo. Ano passado eu passei por essa experiencia….15 dias meu filho internado e cirurgia . uma infecção de ouvido q espalhou para o osso….e graças a Deus não foi para o cerebro, acudimos em tempo….. Instinto de mãe , eu sabia q alguma coisa estava muito errada …morro só de lembrar…. Ele passou o march break e a pascoa no sick kids…
    Como vc disse, hospital nao é lugar legal, mas Rafael só fala das coisas boas ! É um time e uma estrutura incrivel. Um senhor q era voluntario q nos levou da enfermaria ate o quarto., disse : esse hospital é como um hotel , e isso é possivel graças as doações ! Sempre fiz doações para o sick kids, agora mais ainda.
    Tenham um otimo natal e q esses perrengues todos fiquem em 2017!

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